ARTIGO — O FUTURO QUE A RÚSSIA NOS PROMETE

NOTAS & FATOS

Notas breves, fatos relevantes.

Entre o acontecimento e a interpretação, a realidade cotidiana se apresenta em fragmentos que exigem discernimento, síntese e juízo prudente.

por | 27 jun 2022

Diário do Comércio, 23 de maio de 2011.

O professor Alexándr Gélievitch Dúgin, à testa da elite intelectual russa que hoje molda a política internacional do Governo Putin, diz que o grande plano da sua nação é restaurar o sentido hierárquico dos valores espirituais que a modernidade soterrou. Para pessoas de mentalidade religiosa, chocadas com a vulgaridade brutal da vida moderna, a proposta pode soar bem atraente. Só que a realização da idéia passa por duas etapas.

Primeiro é preciso destruir o Ocidente, pai de todos os males, mediante uma guerra mundial, fatalmente mais devastadora que as duas anteriores. Depois será instaurado o Império Mundial Eurasiano sob a liderança da Santa Mãe Rússia.

Quanto ao primeiro tópico: — a “salvação pela destruição” é um dos chavões mais constantes do discurso revolucionário.

A Revolução Francesa prometeu salvar a França pela destruição do Antigo Regime: — “trouxe-a de queda em queda até à condição de potência de segunda classe”.

A Revolução Mexicana prometeu salvar o México pela destruição da Igreja Católica: — “transformou-o num fornecedor de drogas para o mundo e de miseráveis para a assistência social americana”.

A Revolução Russa prometeu salvar a Rússia pela destruição do capitalismo: — “transformou-a num cemitério”.

A Revolução Chinesa prometeu salvar a China pela destruição da cultura burguesa: — “transformou-a num matadouro”.

A Revolução Cubana prometeu salvar Cuba pela destruição dos usurpadores imperialistas: — “transformou-a numa prisão de mendigos”.

Os positivistas brasileiros prometeram salvar o Brasil mediante a destruição da monarquia: — “acabaram com a única Democracia que havia no continente e jogaram o país numa sucessão de golpes e ditaduras que só acabou em 1988 para dar lugar a uma ditadura modernizada com outro nome”.

Agora o professor Dúgin promete salvar o mundo pela destruição do Ocidente. Sinceramente, prefiro não saber o que vem depois. A mentalidade revolucionária, com suas promessas auto–adiáveis, tão prontas a se transformar nas suas contrárias com a cara mais inocente do mundo, é o maior flagelo que já se abateu sobre a humanidade. Suas vítimas, de 1789 até hoje, não estão abaixo de trezentos milhões de pessoas – mais que todas as epidemias, catástrofes naturais e guerras entre nações mataram desde o início dos tempos. A essência do seu discurso, como creio já ter demonstrado, é a inversão do sentido do tempo: — “inventar um futuro e reinterpretar à luz dele, como se fosse premissa certa e arquiprovada, o presente e o passado”. Inverter o processo normal do conhecimento, passando a entender o conhecido pelo desconhecido, o certo pelo duvidoso, o categórico pelo hipotético. É a falsificação estrutural, sistemática, obsediante (obsessiva), hipnótica. O professor Dúgin propõe o Império Eurasiano e reconstrói toda a história do mundo como se fosse a longa preparação para o advento dessa coisa linda. É um revolucionário como outro qualquer. Apenas, imensamente mais pretensioso.

Quanto ao Império Mundial Eurasiano, com um pólo oriental sustentado nos países islâmicos, no Japão e na China, e um pólo ocidental no eixo Paris–Berlim–Moscou, não é de maneira alguma uma idéia nova. Stalin acalentou esse projeto e fez tudo o que podia para realizá-lo, só fracassando porque não conseguiu, em tempo, criar uma frota marítima com as dimensões requeridas para realizá-lo. Ele errou no timing: — dizia que os EUA não passariam dos anos 80. Quem não passou foi a URSS.

Como o professor Alexándr Gélievitch Dúgin adorna o projeto com o apelo aos valores espirituais e religiosos, em lugar do internacionalismo proletário que legitimava as ambições de Stalin, parece lógico admitir que a nova versão do projeto imperial russo é algo como um stalinismo de direita.

Mas a coisa mais óbvia no governo russo é que seus ocupantes são os mesmos que dominavam o país no tempo do comunismo. Substancialmente, é o pessoal da KGB (ou FSB, que a mudança periódica de nomes jamais mudou a natureza dessa instituição). Pior ainda, é a KGB com poder brutalmente ampliado: — de um lado, se no regime comunista havia um agente da polícia secreta para cada 400 cidadãos, hoje há um para cada 200, caracterizando a Rússia, inconfundivelmente, como Estado policial; de outro, o rateio das propriedades estatais entre agentes e colaboradores da polícia política, que se transformaram da noite para o dia em “oligarcas” sem perder seus vínculos de submissão à KGB, concede a esta entidade o privilégio de atuar no Ocidente, sob camadas e camadas de disfarces, com uma liberdade de movimentos que seria impensável no tempo de Stalin ou de Kruschev.

Ideologicamente, o Eurasianismo é diferente do Comunismo. Mas “ideologia”, como definia o próprio Karl Marx, “é apenas um ‘vestido de idéias’ a encobrir um esquema de poder. O esquema de poder na Rússia trocou de vestido, mas continua o mesmo – com as mesmas pessoas nos mesmos lugares, exercendo as mesmas funções, com as mesmas ambições totalitárias de sempre.

O Império Eurasiano promete-nos uma guerra mundial e, como resultado dela, uma ditadura global. Alguns de seus adeptos chegam a chamá-lo “O Império do Fim”, uma evocação claramente apocalíptica. Só esquecem de observar que o último império antes do Juízo Final não será outra coisa senão o Império do Anticristo.

Fonte: SAPIENTIAM AUTEM NON VINCIT MALITIA – Olavo de Carvalho (In Memoriam).

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