Notas breves, fatos relevantes.
Entre o acontecimento e a interpretação, a realidade cotidiana se apresenta em fragmentos que exigem discernimento, síntese e juízo prudente.
Há aqueles que, no afã de defender seus ídolos, reduzem-se inevitavelmente a duas posturas: — ou à imbecilidade, ou ao cinismo.
Na imbecilidade, a ignorância se maquia de erudição e se exalta sob a mais arrogante aparência de intelectualidade. No cinismo, por sua vez, o conhecimento verdadeiro é dissimulado sob o disfarce de uma pretensa “dúvida metódica”.
Foi o que ocorreu recentemente quando, ao publicar um recorte de uma fala do Rev. Paulo Brasil, ministro na Igreja Presbiteriana da Aliança, sobre sua avaliação de Paulo Freire, certo indivíduo saiu em defesa do patrono da educação brasileira, negando qualquer influência revolucionária em seu pensamento. Ora, se alguém não é capaz de reconhecer a marca indelével da ideologia marxista na pedagogia freireana, só resta concluir: — ou se trata de um imbecil, que sustenta com prepotência sua própria ignorância, ou de um cínico, que questiona o evidente apenas para não assustar a “massa oprimida” a quem promete a utópica salvação revolucionária.
Abstenho-me de comentar o currículo de Paulo Freire. Afinal, basta uma leve “provocação conservadora” para que seus devotos recitem, em tom quase litúrgico, a ladainha de títulos, cargos e honrarias do “santo patrono da pedagogia libertadora”. A enumeração é sempre a mesma: — feitos grandiosos, trabalhos revolucionários e uma interminável lista de papéis oficiais com seu nome impresso em letras douradas — tudo isso com o propósito de esvaziar qualquer crítica que alguém faça a esse intocável profeta. Porém, a atitude do sujeito que me perturbou quase o dia inteiro com suas respostas insistentes, pedindo-me fontes e citações sobre o já referido autor — quase ao ponto de me pedir uma aula —, fez-me voltar à sua obra e tecer críticas mais pontuais a seu discurso.
Logo na introdução de “Pedagogia do Oprimido”, Paulo Freire adverte que seu livro “irá provocar, em alguns de seus possíveis leitores, reações sectárias”. O que ele não esclarece muito bem — até porque precisão vocabular nunca foi exatamente o seu ponto forte — é o que entende por tal sectarismo. Não tardou, contudo, para eu perceber que concordar com o autor é uma regra hermenêutica fundamental para a compreensão de sua obra. Afinal, segundo ele próprio: — “Na medida, porém, em que, sectariamente, assumam posições fechadas, ‘irracionais’, rechaçarão o diálogo que pretendemos estabelecer através deste livro”. O que, ironicamente, já contradiz a própria noção de diálogo. Pois diálogo, por definição, não é a repetição coral de um mesmo discurso, mas a contraposição de ideias, o choque de argumentos que conduz ao aprendizado ou, quem sabe, até mesmo a uma síntese, como o próprio Hegel, em sua tese dialética, poderia sugerir.
Paulo Freire propõe um “diálogo” partindo do pressuposto de que o interlocutor é sectário, fechado e irracional. Um método realmente brilhante: — nada como começar a conversa desqualificando o outro. Que grandiosíssimo dialético, digno de figurar entre Sócrates e Hegel — ao menos na imaginação de seus devotos. Não obstante, a figura de Paulo Freire evoca como inspirações nomes “grandiosos” não propriamente pela erudição ou pelo exercício do debate, mas pela militância revolucionária armada. Seus referenciais não são Sócrates ou Cícero, mas Che Guevara e Fidel Castro, cuja pedagogia sempre preferiu a pólvora ao argumento e a opressão à persuasão.
Por curiosidade, acabei pesquisando o termo diálogo nesta mesma obra. E veja que trecho encontrei, o qual pode servir de luz para entendermos a fala inicial do ilustre pedagogo. Após fazer uma distinção entre educação bancária (o modo opressor de pedagogia) e educação problematizadora (o modo libertador de ensinar), ele diz: — “Mais uma vez se antagonizam as duas concepções e as duas práticas que estamos analisando. A ‘bancária’, por óbvios motivos, insiste em manter ocultas certas razões que explicam a maneira como estão sendo os homens no mundo e, para isto, mistifica a realidade. A ‘problematizadora’, comprometida com a libertação, se empenha na desmitificação. Por isto, a primeira nega o diálogo, enquanto a segunda tem nele o selo do ato cognoscente, desvelador da realidade”.
Antes mesmo de comentar o desastroso discurso acima, vale mencionar outro ainda mais grotesco: — o daqueles que acusam o professor Olavo de Carvalho de inventar “teorias da conspiração” sobre “Marxismo Cultural” e “Gramscismo”. Curiosamente, quando se trata de Paulo Freire, parece haver plena permissão para elaborar a ideia de um sistema no qual as instituições culturais, especialmente a educação, “servindo à dominação, inibe a criatividade e, ainda que não podendo matar a intencionalidade da consciência como um desprender-se ao mundo, a ‘domestica’, nega os homens na sua vocação ontológica e histórica de humanizar-se”.
Em suma: — quando Olavo denuncia a instrumentalização cultural, é “conspiração”; mas quando Freire faz o mesmo, é “pedagogia libertadora”. Eis a dialética seletiva da “intelligentsia” progressista.
O discurso de Freire é cristalino: — diálogo só existe quando parte do pressuposto de que sua teoria está correta. Talvez isso explique por que conservadores e liberais praticamente não têm espaço nas universidades brasileiras. Afinal, para o “mestre” da pedagogia libertadora, eles não passam de “sectaristas”, “fechados” e prisioneiros da tal “educação bancária”. No fim das contas, o que Paulo Freire propõe não é diálogo, mas doutrinação: — o opositor deve aprender a dançar conforme a música que ele compõe, sob pena de ser tachado de um artista incompetente. Isto, sim, me parece uma educação opressora.
Voltando ao ponto inicial; lembram que disse que só restam duas opções — ser imbecil ou cínico — para quem insiste em defender que o “patrono” não era marxista? Pois bem, vejamos: — essa brilhante ideia de dividir a sociedade entre opressores e oprimidos teria vindo de Adam Smith, entre um cálculo de livre mercado e outro? Ou, quem sabe, de John Locke, enquanto rabiscava suas teses sobre propriedade privada?
Deixo, então, essa pergunta “dialética” aos meus estimados leitores.
O que você perdeu:
(9 de fevereiro de 2026) — Violência reincidente e urgência de responsabilização penal. O caso Pedro Turra tornou-se um clamor público por leis penais mais firmes e eficazes. A morte de Rodrigo Helbingen Fleury Castanheira, adolescente de 16 anos, não pode ser reduzida a uma estatística nem diluída na rotina da impunidade; exige resposta jurídica proporcional, rigorosa e exemplar, à altura da gravidade dos fatos e da comoção social que provocaram. O episódio que culminou em tragédia. No início da madrugada do dia 23 de janeiro de 2026, em...
(30 de janeiro de 2026) — Segundo o Atlas da Violência 2025, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o Brasil registrou 45.747 homicídios em 2023, o que representou a menor taxa da série histórica dos últimos 11 anos (21,2 por 100 mil habitantes) e uma redução em relação a 2022. Dados do Mapa da Segurança Pública 2025, com informações do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), mostram que em 2024 houve mais redução: — foram 35.365...
(20 de janeiro de 2026) — O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que a dinâmica da dívida pública brasileira está mais associada ao patamar elevado dos juros reais — a taxa nominal descontada a inflação — do que ao tamanho dos déficits fiscais, os quais, segundo ele, vêm sendo reduzidos nos últimos anos. “Em dois anos nós reduzimos em 70% o déficit primário. O problema da dívida tem a ver com o juro real, não tem a ver com o déficit, que está caindo”, declarou em entrevista ao programa UOL News, defendendo que custos de juros...