Notas breves, fatos relevantes.
Entre o acontecimento e a interpretação, a realidade cotidiana se apresenta em fragmentos que exigem discernimento, síntese e juízo prudente.
O golpe da República certamente foi a destruição da história do Brasil construída até então, e não acredito que a monarquia volte, pelo menos não tão cedo, dado essa natureza política atual que nem sequer é republicana. Eu não conheço a política americana profundamente, mas essa ideia paternal de Estado como provedor do país é algo certamente estranho à maior potência democrática do mundo. Os conservadores de linha católica aparentemente demonstram um interesse na volta de uma monarquia e, se ser conservador no Brasil significa apoiar a restauração monárquica sob tutela católica romana, não me incluo aí. Eu seria antes um dos guerreiros escoceses e puritanos da Revolução Gloriosa: — lutar para que o catolicismo não se torne o símbolo político do cristianismo. Mas essa é uma disputa que só será importante futuramente, quando o conservadorismo se estabelecer com mais facilidade nas consciências dos cidadãos e digo isto porque, embora tenhamos uma nação profundamente conservadora, ela não sabe o que isso significa e, por vezes, acaba abrindo espaço para ideias estranhas por falta de bases teóricas sobre nossa posição de resistência ao modelo ideológico progressista. O brasileiro, herdeiro do varguismo, tende a compreender o Estado como peça essencial para o desenvolvimento econômico e social e, nesse sentido, nem mesmo a direita deixa de recorrer à política como meio privilegiado de promover transformações. A história do Brasil demonstra claramente esse traço: — o eleitor costuma encarar as eleições como a escolha de um “pai” entre os demais cidadãos, alguém que cuidará de sua vida e garantirá os bens necessários ao seu crescimento e prosperidade.
Ainda hoje me surpreende ouvir que o Regime Militar teria se tornado uma “ditadura de direita”. O conceito de liberdade possui fundamentos que o antecedem — fundamentos históricos, morais e sociais que estruturam o pensamento de uma nação de modo que só é possível ser verdadeiramente livre quando tais valores são devidamente respeitados; caso contrário, a liberdade tornar-se-ia mera licença, e o direito de matar, invadir terras ou sequestrar alguém passaria a ser considerado prerrogativa de todo agente “livre”, anterior até mesmo ao próprio Direito. Diante disso, toda forma de pensamento que se oponha a esses princípios primeiros, atenta contra a própria estrutura do pensamento democrático. Na medida em que tais ideias se expandem e ganham influência, devem ser submetidas ao escrutínio público e, se necessário, refreadas pelo próprio governo, pois a defesa da liberdade exige a preservação das condições morais que a tornam possível, mas perceba que o regime militar não garantiu isto de modo contundente e isto me faz desconfiar de chamar tal regime de “ditadura de Direita”. Costumo dizer, antes, que foi um regime anticomunista, e mesmo assim com ressalvas, pois concedeu anistia ampla a criminosos de esquerda e assegurou que estes se tornassem força majoritária nos cenários cultural, intelectual e político. O chamado regime “autoritário” terminou não por uma derrubada revolucionária, mas porque o “pai” já não conseguia mais pôr a “papa” na boca da criança: — a inflação disparava e o Estado tecnocrático já não cumpria aquilo que se supunha ser o seu papel. Mas, se alguém supõe que eu nego que o regime militar tenha sido genuinamente de direita apenas para isentar minha posição de qualquer traço autoritário, engana-se redondamente. Houve, sim, regimes ditatoriais de direita. Contudo, a distinção entre estes e os regimes comunistas é tão evidente quanto a luz do sol: — nenhuma ditadura de direita possui um fim em si mesma. Ela é, por natureza, temporária e, em regra, surge como resposta a uma força oposta que não se limita a divergir em conceitos posteriores, mas que ataca os próprios princípios primeiros, aqueles que garantem e precedem a liberdade do indivíduo.
Voltemos a falar da mentalidade estatizante do brasileiro passando, agora, aos fatos mais recentes. O brilhante advogado Jeffrey Chiquini tem demonstrado grande integridade na função pública que decidiu abraçar. Atuando na área criminal, mostra-se um profissional de notável argumentação, retórica refinada e conhecimento jurídico profícuo — além de estar vinculado ao maior fenômeno político da direita contemporânea, o bolsonarismo. Não surpreende, portanto, que muitos de seus seguidores comentem em suas redes sociais que ele seria um bom Deputado ou até mesmo um excelente Senador. Como assíduo ouvinte do nosso herói Paulo Figueiredo (não apenas pela seriedade, mas também pelo humor ácido de inspiração olaviana que herdou do professor) confesso sentir certa angústia ao ver, durante as transmissões, um chat inflamado proclamando-o como futuro presidente ou vice de Eduardo Bolsonaro. É de se supor que o próprio Paulo, em sua lucidez, se incomode com esse tipo de declaração. A situação torna-se ainda mais grave quando consideramos o contexto atual: — vivemos uma conjuntura em que o verdadeiro poder político não emana mais do povo, mas do Supremo Tribunal Federal; o Congresso encontra-se totalmente cerceado em suas funções; o Senado permanece imóvel; e o presidente da República sequer figura no jogo político, com a encenação de um velho “pai dos pobres”, ladeado de uma “mulher esbelta”, desfrutando de mordomias de princesa à custa do dinheiro público e agora, parece até que terá seus poderes mais assegurados como primeira–dama. A impressão que tenho é que muitos adeptos da Direita só reconhecem como verdadeiramente patriótico aquilo que parte de um político. Basta alguém demonstrar competência na esfera pública e, imediatamente, já querem despachá-lo para Brasília, como se a capital fosse a única estufa capaz de cultivar bons frutos, trata-se de uma ideia estatizante, centralizadora e que fere princípios do conservadorismo e mais, especialmente, da tradição liberal–capitalista.
Quando o professor Olavo dizia que a direita brasileira é burra, partia de um princípio fundamental: — todo movimento político que tem início em sua própria manifestação política é, em si, uma falácia. Se uma corrente ideológica não possui uma estrutura militante (entendendo-se por militância um corpo de pessoas que se dedicam ao estudo, ao debate interno e à consolidação formal de suas ideias antes de agir publicamente), então o ato político torna-se estúpido e seus efeitos, meramente imediatos. Sem uma base cultural, intelectual e simbólica que imprima no imaginário social os princípios mais primários do pensamento conservador, qualquer ação política será apenas reativa e efêmera. Se nossa concepção de poder é puramente maquiavélica, isto é, se o poder é visto como algo a ser conquistado e mantido em si mesmo, então a esquerda é brilhante, perfeitamente coerente, e toda a acusação de hipocrisia, corrupção ou canalhice que a direita lhe faz se dissipa como fumaça. Afinal, se o poder é um fim em si mesmo, a esquerda o alcançou com pleno êxito e, com razão, pode gloriar-se disso. Mais ainda: — ela não conquistou apenas o poder político, mas também o cultural, o educacional, o literário e o simbólico — esferas que, em conjunto, moldam o espírito de uma nação. Desse modo, cercear a liberdade dos verdadeiros conservadores passou a ser visto como forma de preservar a própria democracia e vocês lembram da parte que eu disse que as liberdades individuais têm bases que a precedem? Então, a esquerda quer mudar justamente este aspecto e, dado que a liberdade só se configura quando essas bases são respeitadas, o que acontece se conservadores e direitistas se opõem a esses princípios primeiros que a esquerda vem modificando? Se a direita não recuperar e sustentar as bases fundacionais da sociedade, cedo ou tarde veremos o paradoxo de os próprios conservadores tornarem-se os novos revolucionários. E isso, de certo modo, será inevitável, se o próprio alicerce da política brasileira permanecer assentado sobre o pensamento de esquerda. A guerra é, sim, ideológica e quem não compreende isso já perdeu antes de começar. Ela não se trava em parlamentos ou nas urnas, mas na formação do espírito humano: — na educação, na arte, na linguagem, na fé e na moral. Reduzi-la a um mero debate político é um erro grotesco, digno dos que confundem aparência com substância. E mais do que um erro, é uma omissão criminosa diante da história, pois aquele que trata a guerra espiritual e cultural como simples disputa de poder será lembrado não apenas como um idiota, mas como cúmplice da destruição da própria civilização que fingiu defender.
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