A LUTA DE CLASSES COMO DISCURSO POLÍTICO

A LUTA DE CLASSES COMO DISCURSO POLÍTICO

O verdadeiro discurso político consiste naquela pretensão ousada, por parte do orador, de oferecer soluções condizentes com a realidade concreta de seus ouvintes. Ora, o homem, por natureza, é mau e possui uma alma corrompida; e isso se evidencia com clareza, pois, se tal afirmação fosse falsa, o socialismo seria, ao menos em algum grau, viável. Entretanto, uma vez que a questão da distribuição de renda, quando o trabalho não é proporcional à retribuição, só pode ser resolvida de duas maneiras, resta-nos uma alternativa excludente: — ou se impõe o trabalho e a contribuição forçada em nome de uma suposta eficácia nacional, o que inevitavelmente desemboca no autoritarismo; ou se estabelece um regime de concorrência no qual o lucro e a rentabilidade são colocados nas mãos daqueles que efetivamente participam do processo produtivo, isto é, o capitalismo.

Entretanto, o autoritarismo pressupõe necessariamente a existência de uma autoridade, algo que os revolucionários condenam sob o pretexto de opressão. Ora, mesmo nessa chamada “nova esquerda caviar”, percebe-se com nitidez o quão opressivo eles consideram o próprio conceito de autoridade: — seja ao incentivar a oposição dos filhos aos princípios de seus pais; seja ao relativizar a orientação sexual sob a alegação de que ela seria mero produto de uma estrutura social imposta pela burguesia; seja, ainda, ao imbecilizar os alunos sob o pretexto de exercer uma suposta “pedagogia do oprimido”IMBECILIDADE E CINISMO — OS DOIS DISCÍPULOS DE FREIRE. Em suma, o conceito de autoridade é algo que esses grupos evitam ao máximo e procuram, deliberadamente, submeter ao escrutínio permanente, rotulando-o como opressor e reacionário, quando, na verdade, o que rejeitam não é o abuso da autoridade, mas a própria ideia de ordem, hierarquia e responsabilidade.

Quando o autoritarismo se alia a essa ideologia, o resultado é aquele que observamos nas ditaduras socialistas. Por outro lado, quando o autoritarismo se articula a princípios que antecedem o próprio conceito de democracia, temos aquilo que a nossa Constituição denomina Estado de Exceção.

Perceba-se, portanto, que o termo autoritarismo, embora idêntico na forma, não designa uma única noção — trata-se do que Aristóteles chamaria de um equívoco (homonymía). O autoritarismo próprio das ditaduras socialistas gravita em torno de uma ideologia dissociada da justiça natural (do latim dictare, ditar, prescrever, impor) e, de modo ainda mais grave, apartada da própria Constituição. Já o autoritarismo exercido em função desses mesmos princípios constitucionais não deve ser compreendido como ditatorial, mas como excepcional (do latim exceptio, –onis, significando o ato de excluir, ressalva ou restrição) à ordem regular da nação. O fato é que esse último tipo de autoritarismo, precisamente por estar limitado por fundamentos jurídicos e morais anteriores ao poder, jamais se perpetuou de modo decisivo e cabal em qualquer nação, ao contrário do primeiro, cuja essência é justamente a perpetuação do poder ideológico sem freios transcendentes ou normativos. Novamente, o autoritarismo ideológico consiste na imposição de uma ideia à margem dos princípios elementares da civilização, como a família, a religião, os costumes e a moral. O autoritarismo excepcional, por sua vez, não se apresenta como um fim em si mesmo, mas como um meio indesejado, embora necessário, para restabelecer esses mesmos princípios elementares da civilização como norma e fundamento da sociedade.

A mentalidade revolucionária, portanto, deve assegurar, antes de tudo, que os conceitos de autoridade e ordem sejam apresentados como algo inteiramente alienador e opressor, como se restringissem liberdades, silenciassem vozes e agredissem posições excêntricas. Desse modo, quando tais princípios conservadores são defendidos, nada mais resta a fazer, segundo essa lógica, senão incriminá-los de forma agressiva. O desfecho dessa história, caro leitor, já é bem conhecido. Eles assumem o poder, estabelecem os seus próprios princípios como fundamento da civilização e, então, duas coisas inevitavelmente acontecem: — [1] – aqueles que discordam de suas posições são conduzidos ao matadouro; [2] – eles continuam a clamar contra a suposta mentalidade reacionária e opressora que previamente rotularam, insistindo na necessidade de combatê-la em nome da democracia, por mais que estejam efetivamente no poder, continuam a se apresentar como vítimas em seu próprio discurso, pelo que concluímos que essa porcaria de luta de classes é um discurso político e não um problema efetivo da nação.

A GUERRA É IDEOLÓGICA, O PECADO ORIGINAL DA DIREITA BRASILEIRA

A GUERRA É IDEOLÓGICA, O PECADO ORIGINAL DA DIREITA BRASILEIRA

O golpe da República certamente foi a destruição da história do Brasil construída até então, e não acredito que a monarquia volte, pelo menos não tão cedo, dado essa natureza política atual que nem sequer é republicana. Eu não conheço a política americana profundamente, mas essa ideia paternal de Estado como provedor do país é algo certamente estranho à maior potência democrática do mundo. Os conservadores de linha católica aparentemente demonstram um interesse na volta de uma monarquia e, se ser conservador no Brasil significa apoiar a restauração monárquica sob tutela católica romana, não me incluo aí. Eu seria antes um dos guerreiros escoceses e puritanos da Revolução Gloriosa: — lutar para que o catolicismo não se torne o símbolo político do cristianismo. Mas essa é uma disputa que só será importante futuramente, quando o conservadorismo se estabelecer com mais facilidade nas consciências dos cidadãos e digo isto porque, embora tenhamos uma nação profundamente conservadora, ela não sabe o que isso significa e, por vezes, acaba abrindo espaço para ideias estranhas por falta de bases teóricas sobre nossa posição de resistência ao modelo ideológico progressista. O brasileiro, herdeiro do varguismo, tende a compreender o Estado como peça essencial para o desenvolvimento econômico e social e, nesse sentido, nem mesmo a direita deixa de recorrer à política como meio privilegiado de promover transformações. A história do Brasil demonstra claramente esse traço: — o eleitor costuma encarar as eleições como a escolha de um “pai” entre os demais cidadãos, alguém que cuidará de sua vida e garantirá os bens necessários ao seu crescimento e prosperidade.

Ainda hoje me surpreende ouvir que o Regime Militar teria se tornado uma “ditadura de direita”. O conceito de liberdade possui fundamentos que o antecedem — fundamentos históricos, morais e sociais que estruturam o pensamento de uma nação de modo que só é possível ser verdadeiramente livre quando tais valores são devidamente respeitados; caso contrário, a liberdade tornar-se-ia mera licença, e o direito de matar, invadir terras ou sequestrar alguém passaria a ser considerado prerrogativa de todo agente “livre”, anterior até mesmo ao próprio Direito. Diante disso, toda forma de pensamento que se oponha a esses princípios primeiros, atenta contra a própria estrutura do pensamento democrático. Na medida em que tais ideias se expandem e ganham influência, devem ser submetidas ao escrutínio público e, se necessário, refreadas pelo próprio governo, pois a defesa da liberdade exige a preservação das condições morais que a tornam possível, mas perceba que o regime militar não garantiu isto de modo contundente e isto me faz desconfiar de chamar tal regime de “ditadura de Direita”. Costumo dizer, antes, que foi um regime anticomunista, e mesmo assim com ressalvas, pois concedeu anistia ampla a criminosos de esquerda e assegurou que estes se tornassem força majoritária nos cenários cultural, intelectual e político. O chamado regime “autoritário” terminou não por uma derrubada revolucionária, mas porque o “pai” já não conseguia mais pôr a “papa” na boca da criança: — a inflação disparava e o Estado tecnocrático já não cumpria aquilo que se supunha ser o seu papel. Mas, se alguém supõe que eu nego que o regime militar tenha sido genuinamente de direita apenas para isentar minha posição de qualquer traço autoritário, engana-se redondamente. Houve, sim, regimes ditatoriais de direita. Contudo, a distinção entre estes e os regimes comunistas é tão evidente quanto a luz do sol: — nenhuma ditadura de direita possui um fim em si mesma. Ela é, por natureza, temporária e, em regra, surge como resposta a uma força oposta que não se limita a divergir em conceitos posteriores, mas que ataca os próprios princípios primeiros, aqueles que garantem e precedem a liberdade do indivíduo.

Voltemos a falar da mentalidade estatizante do brasileiro passando, agora, aos fatos mais recentes. O brilhante advogado Jeffrey Chiquini tem demonstrado grande integridade na função pública que decidiu abraçar. Atuando na área criminal, mostra-se um profissional de notável argumentação, retórica refinada e conhecimento jurídico profícuo — além de estar vinculado ao maior fenômeno político da direita contemporânea, o bolsonarismo. Não surpreende, portanto, que muitos de seus seguidores comentem em suas redes sociais que ele seria um bom Deputado ou até mesmo um excelente Senador. Como assíduo ouvinte do nosso herói Paulo Figueiredo (não apenas pela seriedade, mas também pelo humor ácido de inspiração olaviana que herdou do professor) confesso sentir certa angústia ao ver, durante as transmissões, um chat inflamado proclamando-o como futuro presidente ou vice de Eduardo Bolsonaro. É de se supor que o próprio Paulo, em sua lucidez, se incomode com esse tipo de declaração. A situação torna-se ainda mais grave quando consideramos o contexto atual: — vivemos uma conjuntura em que o verdadeiro poder político não emana mais do povo, mas do Supremo Tribunal Federal; o Congresso encontra-se totalmente cerceado em suas funções; o Senado permanece imóvel; e o presidente da República sequer figura no jogo político, com a encenação de um velho “pai dos pobres”, ladeado de uma “mulher esbelta”, desfrutando de mordomias de princesa à custa do dinheiro público e agora, parece até que terá seus poderes mais assegurados como primeira–dama. A impressão que tenho é que muitos adeptos da Direita só reconhecem como verdadeiramente patriótico aquilo que parte de um político. Basta alguém demonstrar competência na esfera pública e, imediatamente, já querem despachá-lo para Brasília, como se a capital fosse a única estufa capaz de cultivar bons frutos, trata-se de uma ideia estatizante, centralizadora e que fere princípios do conservadorismo e mais, especialmente, da tradição liberal–capitalista.

Quando o professor Olavo dizia que a direita brasileira é burra, partia de um princípio fundamental: — todo movimento político que tem início em sua própria manifestação política é, em si, uma falácia. Se uma corrente ideológica não possui uma estrutura militante (entendendo-se por militância um corpo de pessoas que se dedicam ao estudo, ao debate interno e à consolidação formal de suas ideias antes de agir publicamente), então o ato político torna-se estúpido e seus efeitos, meramente imediatos. Sem uma base cultural, intelectual e simbólica que imprima no imaginário social os princípios mais primários do pensamento conservador, qualquer ação política será apenas reativa e efêmera. Se nossa concepção de poder é puramente maquiavélica, isto é, se o poder é visto como algo a ser conquistado e mantido em si mesmo, então a esquerda é brilhante, perfeitamente coerente, e toda a acusação de hipocrisia, corrupção ou canalhice que a direita lhe faz se dissipa como fumaça. Afinal, se o poder é um fim em si mesmo, a esquerda o alcançou com pleno êxito e, com razão, pode gloriar-se disso. Mais ainda: — ela não conquistou apenas o poder político, mas também o cultural, o educacional, o literário e o simbólico — esferas que, em conjunto, moldam o espírito de uma nação. Desse modo, cercear a liberdade dos verdadeiros conservadores passou a ser visto como forma de preservar a própria democracia e vocês lembram da parte que eu disse que as liberdades individuais têm bases que a precedem? Então, a esquerda quer mudar justamente este aspecto e, dado que a liberdade só se configura quando essas bases são respeitadas, o que acontece se conservadores e direitistas se opõem a esses princípios primeiros que a esquerda vem modificando? Se a direita não recuperar e sustentar as bases fundacionais da sociedade, cedo ou tarde veremos o paradoxo de os próprios conservadores tornarem-se os novos revolucionários. E isso, de certo modo, será inevitável, se o próprio alicerce da política brasileira permanecer assentado sobre o pensamento de esquerda. A guerra é, sim, ideológica e quem não compreende isso já perdeu antes de começar. Ela não se trava em parlamentos ou nas urnas, mas na formação do espírito humano: — na educação, na arte, na linguagem, na fé e na moral. Reduzi-la a um mero debate político é um erro grotesco, digno dos que confundem aparência com substância. E mais do que um erro, é uma omissão criminosa diante da história, pois aquele que trata a guerra espiritual e cultural como simples disputa de poder será lembrado não apenas como um idiota, mas como cúmplice da destruição da própria civilização que fingiu defender.

MANIQUEÍSMO POLÍTICO, O ARTIFÍCIO IDEOLÓGICO QUE ESCONDE O VERDADEIRO CONFRONTO

MANIQUEÍSMO POLÍTICO, O ARTIFÍCIO IDEOLÓGICO QUE ESCONDE O VERDADEIRO CONFRONTO

O termo maniqueísmo político consiste na polarização artificial que marca a política brasileira entre adeptos da direita e da esquerda. Trata-se de uma redução simplista da complexidade política a uma luta binária e moralmente carregada: — o bem, representado pelo próprio grupo, versus o mal, encarnado pelo grupo oposto. Essa polarização é artificial, pois não se fundamenta em um referencial comum compartilhado entre os lados; possui apenas uma finalidade prática em comum: — conquistar poder e silenciar o adversário. Até certo ponto, nenhum dos lados possui vantagens claras nesse jogo.

No entanto, quando observamos as políticas de esquerda, nota-se que fenômenos como a desordem social, o relativismo moral e a desconstrução da família são tratados meramente como pautas ideológicas contrárias ao conservadorismo. A centralização estatal da esquerda é entendida apenas como um modo distinto de operar, divergente dos valores liberais de liberdade individual. E os meios que a esquerda emprega para atingir seus objetivos, muitas vezes fora das linhas constitucionais, são considerados tão “válidos” quanto o cumprimento formal da lei pelo lado conservador. Na esfera política, essas divergências podem parecer meras ideologias em confronto; mas, na realidade, todos sabem do que se trata.

Uma sociedade está lutando para se manter dentro de uma estrutura histórica construída e consolidada pela experiência humana, enquanto enfrenta uma ideologia de poder dominante que neutraliza consciências, promove uma luta social interminável e gera uma instabilidade social sem precedentes. Eu sinceramente não acredito que esse jogo aqui vá terminar bem, pois ele já é injusto em sua estrutura, uma vez que permite que ideias abstratas com fundamento na instabilidade social (a guerra de classes) configure um ambiente em que já sentencie um lado ao total escrutínio.

Basta analisar que qualquer debate com um acadêmico de esquerda terminará com um protesto litúrgico com a expressão “recua, fascista, recua”. Ou seja, o jogo dialético neste jogo tem um pressuposto claro, a oposição não pode contrariar as pautas da esquerda, pois esta tentativa é equivalente a um burguês tentando manter as estruturas de domínio contra uma minoria oprimida.

Outra consequência que emana deste jogo fracassado é a de considerar tudo como um ato político, uma tentativa rígida e extremista de cercear as liberdades individuais classificando as pessoas entre opressores e oprimidos e, a partir destas classificações, igualar tais ideias aos antigos regimes totalitários como o fascismo e o nazismo. O resultado é um ambiente dominado por jovens autoritários e desinformados nas universidades; por artistas que, com certo histrionismo, entoam “Luz de Tieta” na Avenida Paulista em protesto contra o processo de anistia — o mesmo que outrora os beneficiou, apesar dos crimes reais que cometeram, inclusive o de assassinato; por um Supremo Tribunal alinhado a ideais de dominação que não competem ao poder judiciário; e por uma velha imprensa que sobrevive à sombra da verba pública e da proteção estatal. A oposição é tachada de “fascista” pelos jovens e pelos artistas; o Supremo arma um julgamento condenando-os como meliantes e a imprensa está disposta anunciar tudo isto como uma grande vitória da democracia brasileira. É uma cena em que a manipulação ideológica e a teatralização política substituem qualquer debate sério, tornando o jogo injusto e permanentemente desequilibrado.

Nem mesmo uma “esquerda razoavelmente equilibrada” encontra espaço neste debate. O recente caso do universitário Sávio Silva de Oliveira, doutorando em Ciência Política na USP, exemplifica o extremismo da esquerda atual. Ele foi classificado como membro da extrema–direita, não por compartilhar os valores defendidos pelo bolsonarismo, mas simplesmente por reconhecer que certas ideias podem ser válidas no debate público sem necessidade de rotulação. Esse gesto de abertura ao diálogo foi suficiente para que surgissem e-mails de hostilidade e ameaças. Se isso já é absurdo, torna-se ainda mais grave ao se considerar a reação da esquerda diante do doutorando que estava ao lado de Firmino Cortada, meu conterrâneo sul–mato–grossense, abertamente de direita. Nesse cenário, a esquerda revela não apenas intolerância, mas um extremismo capaz de criminalizar o simples ato de debater ideias.

É verdade que a redução da política à dicotomia direita/esquerda é simplista e que ambos os lados caem nesse erro. No entanto, considerando a ausência de referencial comum, a utilização da guerra social para gerar instabilidade e julgamento prévio — em que um dos lados já é sentenciado à crítica e à marginalização — e o expurgo de vozes equilibradas, pelo menos do ponto de vista das reações públicas, fica claro que o jogo já possui um vencedor predeterminado. Diante dessa injustiça, surge uma questão inevitável: — quebrar os paradigmas do jogo é realmente imoral? Desconsiderar o Supremo Tribunal Federal e apelar a uma autoridade estrangeira é antipatriótico? Levantar a bandeira americana durante uma manifestação no Dia da Independência é um ato antinacionalista? Além disso, quando vemos a esquerda protestar contra uma PEC — a chamada “blindagem” — sob o argumento de que ela criaria brechas para a corrupção, deveríamos realmente crer que seu propósito é promover uma política transparente e banhada em honestidade? Claro […] assim como acreditaríamos que certos artistas carnavalescos madrugam para escrever tratados filosóficos sobre moralidade. Tudo no Brasil é teatral, e o teatro, convenhamos, tem sempre uma plateia pronta para aplaudir ou xingar, mas nunca para pensar. Até mesmo a direita entrou nesse espetáculo tragicômico: — ao criticar a PEC, afirmou que ela serviria para blindar corruptos, esquecendo que desde o início seu próprio discurso já denunciava que os corruptos estavam devidamente protegidos pelo emparelhamento entre judiciário e imprensa.

Entretanto, a Direita precisa começar a enxergar o seu verdadeiro inimigo pelo que ele realmente é. Quando esse Leviatã se ergue contra as liberdades individuais, contra a ordem social historicamente construída, e recorre a meios maquiavélicos para conquistar — e manter — o poder, não estamos diante de uma mera oposição de ideias, mas de criminosos da pior espécie. Basta analisar o histórico de cada um desses bandidos para perceber que nenhum deles sairá limpo deste jogo.

Suas mãos estão manchadas de sangue, seus bolsos transbordam de dinheiro público desviado, e a permanência política dessa vertente se sustenta justamente na ênfase contínua da guerra, da luta de classes e da desordem social — males que ela própria cria e depois finge combater.

E quando afirmo isso de forma clara e incisiva, logo surge o esquerdista hipócrita — aquele que vibra ao ver idosas presas por anos sob a acusação de um “golpe de Estado” e, com o cinismo habitual, sentencia: — “isso é extremismo”. Curioso — são os mesmos que celebram a morte de um influente conservador americano como Charles Kirk ou, se não o fazem abertamente, tampouco condenam o crime.

São também os que transformam em “santos” torturadores e ditadores comunistas como Che Guevara e Fidel Castro.

E, quando examinamos como o maior partido de esquerda do Brasil ascendeu ao poder que hoje ostenta, não é preciso cavar muito fundo: — logo se descobre o rastro de auxílio estrangeiro, de organizações criminosas e da corrupção que se tornou a marca inconfundível de seus períodos no Executivo.

IMBECILIDADE E CINISMO — OS DOIS DISCÍPULOS DE FREIRE

IMBECILIDADE E CINISMO — OS DOIS DISCÍPULOS DE FREIRE

Há aqueles que, no afã de defender seus ídolos, reduzem-se inevitavelmente a duas posturas: — ou à imbecilidade, ou ao cinismo.

Na imbecilidade, a ignorância se maquia de erudição e se exalta sob a mais arrogante aparência de intelectualidade. No cinismo, por sua vez, o conhecimento verdadeiro é dissimulado sob o disfarce de uma pretensa “dúvida metódica”.

Foi o que ocorreu recentemente quando, ao publicar um recorte de uma fala do Rev. Paulo Brasil, ministro na Igreja Presbiteriana da Aliança, sobre sua avaliação de Paulo Freire, certo indivíduo saiu em defesa do patrono da educação brasileira, negando qualquer influência revolucionária em seu pensamento. Ora, se alguém não é capaz de reconhecer a marca indelével da ideologia marxista na pedagogia freireana, só resta concluir: — ou se trata de um imbecil, que sustenta com prepotência sua própria ignorância, ou de um cínico, que questiona o evidente apenas para não assustar a “massa oprimida” a quem promete a utópica salvação revolucionária.

Abstenho-me de comentar o currículo de Paulo Freire. Afinal, basta uma leve “provocação conservadora” para que seus devotos recitem, em tom quase litúrgico, a ladainha de títulos, cargos e honrarias do “santo patrono da pedagogia libertadora”. A enumeração é sempre a mesma: — feitos grandiosos, trabalhos revolucionários e uma interminável lista de papéis oficiais com seu nome impresso em letras douradas — tudo isso com o propósito de esvaziar qualquer crítica que alguém faça a esse intocável profeta. Porém, a atitude do sujeito que me perturbou quase o dia inteiro com suas respostas insistentes, pedindo-me fontes e citações sobre o já referido autor — quase ao ponto de me pedir uma aula —, fez-me voltar à sua obra e tecer críticas mais pontuais a seu discurso.

Logo na introdução de “Pedagogia do Oprimido”, Paulo Freire adverte que seu livro “irá provocar, em alguns de seus possíveis leitores, reações sectárias”. O que ele não esclarece muito bem — até porque precisão vocabular nunca foi exatamente o seu ponto forte — é o que entende por tal sectarismo. Não tardou, contudo, para eu perceber que concordar com o autor é uma regra hermenêutica fundamental para a compreensão de sua obra. Afinal, segundo ele próprio: — “Na medida, porém, em que, sectariamente, assumam posições fechadas, ‘irracionais’, rechaçarão o diálogo que pretendemos estabelecer através deste livro”. O que, ironicamente, já contradiz a própria noção de diálogo. Pois diálogo, por definição, não é a repetição coral de um mesmo discurso, mas a contraposição de ideias, o choque de argumentos que conduz ao aprendizado ou, quem sabe, até mesmo a uma síntese, como o próprio Hegel, em sua tese dialética, poderia sugerir.

Paulo Freire propõe um “diálogo” partindo do pressuposto de que o interlocutor é sectário, fechado e irracional. Um método realmente brilhante: — nada como começar a conversa desqualificando o outro. Que grandiosíssimo dialético, digno de figurar entre Sócrates e Hegel — ao menos na imaginação de seus devotos. Não obstante, a figura de Paulo Freire evoca como inspirações nomes “grandiosos” não propriamente pela erudição ou pelo exercício do debate, mas pela militância revolucionária armada. Seus referenciais não são Sócrates ou Cícero, mas Che Guevara e Fidel Castro, cuja pedagogia sempre preferiu a pólvora ao argumento e a opressão à persuasão.

Por curiosidade, acabei pesquisando o termo diálogo nesta mesma obra. E veja que trecho encontrei, o qual pode servir de luz para entendermos a fala inicial do ilustre pedagogo. Após fazer uma distinção entre educação bancária (o modo opressor de pedagogia) e educação problematizadora (o modo libertador de ensinar), ele diz: — “Mais uma vez se antagonizam as duas concepções e as duas práticas que estamos analisando. A ‘bancária’, por óbvios motivos, insiste em manter ocultas certas razões que explicam a maneira como estão sendo os homens no mundo e, para isto, mistifica a realidade. A ‘problematizadora’, comprometida com a libertação, se empenha na desmitificação. Por isto, a primeira nega o diálogo, enquanto a segunda tem nele o selo do ato cognoscente, desvelador da realidade”.

Antes mesmo de comentar o desastroso discurso acima, vale mencionar outro ainda mais grotesco: — o daqueles que acusam o professor Olavo de Carvalho de inventar “teorias da conspiração” sobre “Marxismo Cultural” e “Gramscismo”. Curiosamente, quando se trata de Paulo Freire, parece haver plena permissão para elaborar a ideia de um sistema no qual as instituições culturais, especialmente a educação, “servindo à dominação, inibe a criatividade e, ainda que não podendo matar a intencionalidade da consciência como um desprender-se ao mundo, a ‘domestica’, nega os homens na sua vocação ontológica e histórica de humanizar-se”.

Em suma: — quando Olavo denuncia a instrumentalização cultural, é “conspiração”; mas quando Freire faz o mesmo, é “pedagogia libertadora”. Eis a dialética seletiva da “intelligentsia” progressista.

O discurso de Freire é cristalino: — diálogo só existe quando parte do pressuposto de que sua teoria está correta. Talvez isso explique por que conservadores e liberais praticamente não têm espaço nas universidades brasileiras. Afinal, para o “mestre” da pedagogia libertadora, eles não passam de “sectaristas”, “fechados” e prisioneiros da tal “educação bancária”. No fim das contas, o que Paulo Freire propõe não é diálogo, mas doutrinação: — o opositor deve aprender a dançar conforme a música que ele compõe, sob pena de ser tachado de um artista incompetente. Isto, sim, me parece uma educação opressora.

Voltando ao ponto inicial; lembram que disse que só restam duas opções — ser imbecil ou cínico — para quem insiste em defender que o “patrono” não era marxista? Pois bem, vejamos: — essa brilhante ideia de dividir a sociedade entre opressores e oprimidos teria vindo de Adam Smith, entre um cálculo de livre mercado e outro? Ou, quem sabe, de John Locke, enquanto rabiscava suas teses sobre propriedade privada?

Deixo, então, essa pergunta “dialética” aos meus estimados leitores.