Notas breves, fatos relevantes.
Entre o acontecimento e a interpretação, a realidade cotidiana se apresenta em fragmentos que exigem discernimento, síntese e juízo prudente.
(14 de outubro de 2025) — O Nordeste brasileiro, região amplamente governada por partidos de esquerda, tornou-se o epicentro da violência nacional. Sob o discurso de políticas sociais e segurança humanitária, a realidade expõe um colapso institucional profundo: — as taxas de homicídio e de crimes violentos intencionais são as mais altas do país, e a presença do Estado, em muitas áreas, é apenas nominal.
Atualmente, oito dos nove estados nordestinos são governados por partidos de esquerda ou de orientação progressista:
Bahia (PT – Jerônimo Rodrigues).
Ceará (PT – Elmano de Freitas).
Piauí (PT – Rafael Fonteles).
Maranhão (PSB – Carlos Brandão).
Rio Grande do Norte (PT – Fátima Bezerra).
Paraíba (PSB – João Azevêdo).
Sergipe (PSD – Fábio Mitidieri).
Alagoas (MDB – Paulo Dantas, aliado da base petista).
Pernambuco, sob Raquel Lyra (PSDB), mantém alianças e políticas de mesma orientação.
O resultado dessa hegemonia política é visível nos números.
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, que compila dados oficiais de 2024, o Nordeste concentra as piores taxas de Mortes Violentas Intencionais (MVI) do país.
A Bahia lidera com 40,6 mortes por 100 mil habitantes, seguida do Ceará, com 37,5, Pernambuco (36,2), Alagoas (35,4) e Maranhão (27,8).
Em seguida aparecem Paraíba (18,7), Rio Grande do Norte (18,5), Sergipe (16,0) e Piauí (15,3).
A média regional é alarmante: — 33,8 mortes violentas por 100 mil habitantes, contra uma média nacional de 20,8, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Isso significa que, em termos proporcionais, a região nordestina é quase duas vezes mais violenta que o restante do país.
A Bahia, governada pelo PT há quase duas décadas, mantém-se consistentemente como o estado mais violento do Brasil. Em 2024, Salvador e sua região metropolitana registraram os maiores índices de homicídios do país, com mais de 5.500 mortes violentas — número superior ao de muitos países inteiros da Europa.
O Ceará, segundo no ranking, enfrenta um colapso ainda mais simbólico e trágico: — facções criminosas tomaram o controle de bairros e distritos inteiros, expulsando populações e instaurando domínio territorial.
No interior cearense, o caso mais emblemático é o do distrito de Uiraponga (CE), no município de Morada Nova, onde cerca de 300 famílias foram obrigadas a abandonar suas casas após ameaças diretas de grupos rivais que disputam o narcotráfico e o controle de rotas de transporte.
A prefeitura decretou situação de emergência, e escolas, postos de saúde e estabelecimentos públicos foram fechados. O vilarejo, outrora habitado, tornou-se uma cidade fantasma — símbolo da falência da autoridade estatal.
As investigações apontam para a atuação de facções como o CV (Comando Vermelho), o GDE (Guardiões do Estado) e o TCP (Terceiro Comando Puro), que impõem o terror local e decidem quem pode ou não permanecer nas comunidades. Mesmo com prisões pontuais, a população não retornou às suas casas.
O Comando Vermelho (CV), surgido nas prisões do Rio de Janeiro na década de 1970, é uma das mais antigas e violentas facções do país, com atuação no tráfico de drogas, armas e domínio de presídios.
O GDE (Guardiões do Estado) é uma organização criminosa originária do Ceará, formada em 2016 por dissidentes locais e fortemente estruturada nas periferias de Fortaleza, mantendo vínculos eventuais com o CV para troca de armas e rotas.
O TCP (Terceiro Comando Puro), também nascido no Rio de Janeiro, surgiu como uma dissidência direta do Comando Vermelho, mas atua de forma independente, em disputa com o CV e, em alguns territórios, em aliança tática com o Primeiro Comando da Capital (PCC) — especialmente em estados do Nordeste, onde o tráfico de entorpecentes e armas requer coordenação logística interestadual.
Essas facções, segundo o Relatório Nacional de Facções Criminosas (MJSP, 2024), estão hoje presentes em todos os estados do Nordeste, com expansão territorial acelerada no Ceará, Bahia e Pernambuco, dominando presídios, bairros e comunidades inteiras.
No caso de Uiraponga, a disputa envolve o GDE e o TCP, que travam guerra aberta pelo controle da rota sertaneja que liga o Ceará ao Piauí — uma das novas fronteiras do narcotráfico no interior nordestino.
Em paralelo, Pernambuco, Alagoas e Maranhão continuam entre os estados com maiores índices de violência letal, sem redução consistente nos últimos cinco anos. Em Pernambuco, a taxa de homicídios chegou a 36,2 por 100 mil habitantes, e a capital Recife segue entre as dez mais violentas do Brasil. Alagoas, com 35,4, voltou a registrar aumento de mortes após dois anos de queda, e Maranhão, com 27,8, viu crescer o número de assassinatos ligados ao tráfico interestadual. Já Paraíba (18,7) e Rio Grande do Norte (18,5) — embora apresentem índices ligeiramente menores — continuam acima da média nacional. Sergipe (16,0) e Piauí (15,3) figuram entre os menos violentos da região, mas ainda distantes de um quadro de segurança aceitável.
De acordo com o Atlas da Violência 2024, mesmo com a redução nacional para 21,2 homicídios por 100 mil habitantes, o Nordeste permanece como a região mais letal do país, responsável por quase metade dos assassinatos no território nacional.
Enquanto os governos estaduais multiplicam campanhas ideológicas e discursos sobre “segurança cidadã”, as facções transformam bairros inteiros em zonas de exclusão, e o cidadão comum se vê sem alternativa: — ou se cala, ou foge.
O contraste entre o discurso e a realidade é abissal. O Nordeste, berço de promessas populistas e discursos de igualdade social, colhe hoje os frutos da omissão, da leniência penal e da destruição das estruturas de autoridade.
A violência tornou-se o idioma oficial das ruas — e o Estado, cúmplice silencioso, parece já não compreender a própria língua da lei.
Facções executam prefeito e interferem na política municipal.
A crise de segurança no Nordeste atingiu um novo e alarmante patamar: — facções criminosas agora interferem diretamente nas relações políticas municipais, elegendo representantes, financiando campanhas e, quando necessário, eliminando adversários.
O caso mais emblemático ocorreu no Rio Grande do Norte, onde o prefeito de João Dias, Francisco Damião de Oliveira (conhecido como Marcelo), foi executado a tiros em outubro de 2023 em um atentado atribuído a facções ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e a grupos armados locais.
A execução do prefeito Francisco Damião de Oliveira (União Brasil), revelou o grau alarmante da infiltração do crime organizado na política municipal do Nordeste.
O crime, planejado e executado por traficantes ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC), foi o desfecho trágico de uma disputa de poder que envolvia contratos públicos, financiamento eleitoral e controle territorial em João Dias, pequeno município de pouco mais de 2.000 habitantes no alto sertão potiguar.
O áudio que escancarou o conluio.
Um áudio obtido pela Polícia Civil e revelado pelo Fantástico mostra um diálogo comprometedor entre Francisco Deusamor Jácome, condenado por tráfico internacional de drogas e apontado como ligado diretamente a Marcola, líder do PCC, e o então candidato Marcelo Oliveira.
Na gravação, Deusamor oferece dinheiro em troca de influência política e futura renúncia:
“A gente fazendo um acordo desse com você aí, é uma coisa que dá pra você se remediar pro resto da vida […] você vai sair de boa, porque 230 (mil reais) eu dei pra você pagar suas contas. E agora eu vou lhe dar mais 500 mil reais. Pense, por esse lado é muito dinheiro”.
Segundo as investigações, as ofertas foram feitas antes das eleições municipais de 2020, quando a chapa do partido progressistas trouxe Marcelo Oliveira como candidato a prefeito e Damária Jácome, irmã de Deusamor, como vice–prefeita.
Mesmo sendo procurado pela Interpol, Deusamor Jácome aparecia em comícios e eventos políticos durante a campanha, em público e sem disfarce — símbolo da audácia das facções na penetração política do interior nordestino.
A família Jácome e o PCC.
Deusamor não era exceção, não era o único da família envolvido em crimes. Cinco de seus irmãos — Leidjan Jácome, José Romeu Jácome, Samuel Jácome, Damária Jácome e Leidiane Jácome — foram igualmente investigados ou condenados por tráfico internacional de drogas e assassinato.
Segundo relatórios da Polícia Federal, Deusamor Jácome e Leidjan Jácome figuravam entre os maiores traficantes do Nordeste, movimentando mais de 30 milhões de reais em maconha, com rotas que iam do Paraguai a Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Norte.
As autoridades afirmam que a família Jácome mantinha vínculos operacionais e financeiros com o PCC, sendo “braço logístico” de Marcola na região.
Após vencer as eleições, Marcelo Oliveira renunciou ao cargo em junho de 2021, seis meses depois da posse. O motivo, segundo a Polícia Civil, foi a pressão direta e ameaça feita por Deusamor, que financiara parte da campanha. Com sua saída, Damária Jácome, a irmã do traficante, assumiu a prefeitura.
Em discurso público, ela chegou a agradecer “aos irmãos” e afirmou que eles haviam “idealizado os quatro anos da administração” — uma confissão velada de que o governo municipal estava, de fato, sob controle do crime organizado.
Tráfico, política e poder.
De acordo com dados do IBGE, a prefeitura de João Dias movimentou R$ 23 milhões em 2023, provenientes principalmente de repasses federais.
Segundo investigadores federais, o objetivo das facções é claro: — tomar o poder político em cidades pequenas e usá-lo para lavar dinheiro do tráfico e expandir sua influência econômica.
O Fantástico teve acesso a um relatório sigiloso da Polícia Federal e de promotores eleitorais que revela: — em 42 municípios brasileiros, facções criminosas interferiram diretamente nas eleições municipais, financiando candidatos ou executando adversários.
Só em São Paulo, o PCC teria investido cerca de R$ 8 bilhões em campanhas municipais para garantir influência política e contratos públicos.
O desfecho sangrento.
Dois meses após assumir a prefeitura, Damária Jácome decretou luto oficial de três dias pela morte de seus irmãos Deusamor e Leidjan, mortos em confronto com a polícia em outubro de 2021.
Outro irmão, José Romeu, foi preso na mesma operação, e Samuel Jácome já estava detido no Presídio Federal de Segurança Máxima de Porto Velho (RO).
Em 2022, Damária perdeu o mandato após decisão judicial que anulou a renúncia de Marcelo, devolvendo-lhe o cargo de prefeito. Mas o retorno selou seu destino: — Marcelo começou a colaborar com a polícia, fornecendo informações sobre o paradeiro dos irmãos Jácome.
Em 2024, Marcelo e seu pai foram assassinados a tiros em uma barbearia. A polícia prendeu nove suspeitos e Damária Jácome, hoje foragida, é apontada como mandante do crime, ao lado da vereadora Leidiane Jácome, também investigada.
Segundo a investigação, os executores ficaram dez dias escondidos em um sítio da família Jácome, planejando o ataque e aguardando o momento ideal. Há gravações mostrando a preparação do grupo, que chegou a cogitar matar o prefeito durante um culto evangélico. O plano foi concluído dias depois, encerrando uma disputa marcada por corrupção, tráfico e sangue.
O que revela o caso João Dias.
O episódio revela uma nova e perigosa mutação das facções criminosas brasileiras: — a transição da guerra de fuzis para a guerra eleitoral. As facções, agora, não apenas aterrorizam comunidades — elas governam municípios, elegem prefeitos, desviam verbas e moldam a política local sob o domínio do medo e do dinheiro ilícito.
O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte (TJRN) confirmou, em nota oficial, que o líder de uma facção apontado como mandante do assassinato de outro prefeito potiguar, de São José de Campestre, também será julgado por homicídio qualificado, com o júri transferido para Natal por risco de represália e coação de testemunhas.
Esses casos revelam uma nova e sombria fase da atuação das facções no Nordeste: — não mais restritas ao domínio das ruas e dos presídios, elas agora avançam sobre o próprio aparato político, exercendo controle direto sobre prefeituras e mandatos, em conluio com agentes públicos corruptos nas esferas estadual e até federal.
O crime organizado, agora, se mascara de gestão pública, operando por meio de licitações e cargos comissionados — um governo paralelo, armado e financiado pelo tráfico.
Fontes:
Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 – Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Atlas da Violência 2024 – IPEA.
Secretarias Estaduais de Segurança Pública do Nordeste (2024 – 2025).
CNN Brasil, Brasil Paralelo, R7 Notícias e Ministério da Justiça (MJSP).
Fantástico / TV Globo – “Facções criminosas investem para controlar o poder político em pequenas cidades do Brasil” (14/10/2025).
Polícia Civil do RN – Relatório de investigação sobre o assassinato de Marcelo Oliveira (2024).
Ministério Público do RN – Dossiê de vínculos político-criminais (2024).
Polícia Federal – Relatório sobre interferência de facções nas eleições municipais (2024).
IBGE – Finanças Públicas Municipais (2023).
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